INCERE: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA CLÍNICA INTERDISCIPLINAR COM PESSOAS COM TEA

INCERE: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA CLÍNICA  INTERDISCIPLINAR COM PESSOAS COM TEA 

Luana Lourenço Magalhães Chaves3 

Georgia Porto Triandopolis4 

Patrícia de Sousa Gadelha Costa5 

Madalena de Queiroz Lima Verde6 

Ahistória do autismo é acompanhada por inúmeras discussões no cená rio sociopolítico, problematizando fronteiras éticas, jurídicas e cientí ficas. A partir de 2013, com a publicação da quinta edição do Manual de  Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) (2014), esse  quadro clínico tem sido designado com o nome de transtorno do espectro  do autismo – TEA. Ao longo dos anos, inúmeros debates têm sido reali zados sobre quais práticas clínicas são mais eficientes para o tratamen to do TEA. Situar o autismo em diferentes perspectivas teóricas nos faz  

compreender as estratégias plurais de trabalho empregadas com as pessoas  classificadas a partir dessa categoria com o intuito de atenuar o sofrimento  psíquico e favorecer o desenvolvimento emocional.  

Acreditamos que o relato de experiência apresentado aqui será im portante, pois nos dará a oportunidade de expor a relevância da psicanálise  nos cuidados com o tratamento do autismo, uma vez que nosso saber clí nico tem sido criticado e até “desaconselhado” por alguns profissionais no  trabalho com pessoas com esse diagnóstico.  

  1. Psicanalista, atual presidente e membro da equipe interdisciplinar do INCERE, coordenadora téc nica do Programa de Extensão da UFC – Clínica Estética e Política do Cuidado – CEPC, com formação  em psicanálise pelo Sedes Sapientiae – SP e formação em clínica da infância e adolescência pelo  CPPL-PE. 
  2. Psicanalista e membro da equipe interdisciplinar do INCERE, com formação em psicanálise pelo  Sedes Sapientiae-SP e formação em clínica da infância e adolescência pelo CPPL-PE. 
  3. Fonoaudióloga, sócia-fundadora e membro da equipe interdisciplinar do INCERE, com formação  em psicanálise pelo Sedes Sapientiae-SP, especialização em infância, linguagem, alfabetização e  especialista em gerontologia pela Universidade Estadual do Ceará. 
  4. Psicanalista, sócia-fundadora e membro da equipe interdisciplinar do INCERE, monitora na  pesquisa Multicêntrica de Indicadores de Risco para o Desenvolvimento Infantil-IRDI em Fortaleza  (2001), mestre em psicologia pela Universidade de Fortaleza, clínica e cientificamente interessada  nos extremos da vida.

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O presente artigo visa transmitir como a psicanálise pode sustentar  uma prática clínica interdisciplinar institucional realizada com pessoas  com diagnóstico de autismo. Nosso relato se baseia na experiência de uma  organização clínica institucional que existe desde 2000 na cidade de For 

taleza, o Centro de Referência à Infância – INCERE. Esta instituição é  formada por uma equipe interdisciplinar, incluindo em sua composição  atual psicólogas, psicanalistas e fonoaudióloga. Há 23 anos, portanto, o  INCERE se dedica ao atendimento clínico, atravessado pela psicanálise,  a crianças, adolescentes, adultos e idosos em sofrimento psíquico grave e  ao acompanhamento de seus familiares.  

A teoria psicanalítica embasa o trabalho no INCERE desde o seu  nascimento, tanto na atuação clínica quanto na gestão institucional. O  INCERE tem como propósito oferecer tratamento clínico interdisciplinar  a crianças, adolescentes e adultos com transtornos graves no desenvolvi 

mento que apresentam comprometimentos no campo das relações sociais  e da comunicação verbal e/ou não verbal e alterações na sensorialidade.  Além disso, são abordados também casos de intervenção precoce. A clínica  com casos de autismo nos levou, e continua levando, a discutir e a criar  dispositivos clínicos específicos para o atendimento a essas pessoas.  

Para falarmos sobre tal experiência, será necessário discorrer sobre  alguns importantes referenciais teóricos psicanalíticos e sobre a clínica do  século XXI, pois eles fundamentam a existência dessa forma de trabalho.  Para o INCERE, o trabalho institucional e interdisciplinar é relevante  para nossa forma de pensar a constituição humana.  

Freud, em 1919, já previa a presença da psicanálise numa institui ção. Em seu texto “Caminhos da terapia psicanalítica”, ele projetou para  um futuro preferencialmente não distante a aplicação ou adaptação dos  princípios da psicanálise fora do contexto restrito da análise tradicional  e individual. Nesse mesmo texto, Freud [1919]/(2010) falou da possível  criação de instituições que oferecessem tratamento psicanalítico a pessoas  economicamente menos favorecidas, e, para isso, seria necessário adaptar  a técnica analítica tradicional.  

Agora suponhamos que alguma organização nos permitisse aumentar  nosso número de forma tal que bastassem para o tratamento de grandes quanti-

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dades de pessoas. […] Então haverá para nós a tarefa de adaptar nossa técnica às  novas condições. […] Mas, como quer que se configure essa psicoterapia para  o povo, quaisquer que sejam os elementos que a componham, suas partes mais  eficientes e mais importantes continuarão a ser aquelas tomadas da psicanálise  rigorosa e não tendenciosa. (FREUD, 2010, p. 291-292).  

Diante disso, podemos ver que Freud pôde antecipar a possibilidade  de transposição da psicanálise para outros contextos além da clínica indi vidual, discussão esta ainda relevante nos dias atuais.  

Muitos avanços ocorreram no campo da psicanálise no que se refere  à prática institucional. É sabido que o modelo tradicional das instituições  é regido por burocratização, hierarquização, enrijecimento das regras e  leis, e discurso do mestre. Isso vai na contramão da visão compartilhada  da psicanálise enquanto saber marcado pela exigência radical de susten 

tar na produção (científica, clínica e institucional) um posicionamento  contínuo de interrogação, de questionamento e de convivência com as  incertezas e impossibilidades.  

O trabalho em equipe interdisciplinar no INCERE se ancora no mo delo de gestão horizontal, não burocratizante, alicerçado na admissão da  pluralidade, na interrogação constante e nas relações de reciprocidade.  Para Cavalcanti, Cardoso e Rocha (2000),  

[…] a sociedade de semelhantes possibilita encontrar igualdades na diferen ça e diferenças na igualdade, permitindo a construção de laços identificatórios  em que o outro pode ser reconhecido como semelhante, aparecendo em sua  dimensão de alteridade e abrindo espaço para o novo, mas sendo, ao mesmo tem po, um outro com quem se tem algo em comum. (CAVALCANTI; CARDOSO;  ROCHA, 2000, p.40). 

O trabalho clínico institucional muito nos ensina sobre a importân cia de escutar e recorrer a outros saberes diante das inúmeras interrogações  que a prática clínica nos impõe, mas essa escuta só nos é possível por conta  da pluralidade teórica da psicanálise.  

Freud, mesmo atendendo um público restrito de jovens adultos neu róticos, abriu o caminho para que diferentes conjuntos teórico-conceituais 

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viessem a se desenvolver, e isso produziu clínicas diferentes e múltiplas.  Assim, experiências diversas no campo psicanalítico originaram condutas  clínicas distintas e um enriquecimento teórico ao longo dos anos.  

Costa (2000), revisando a metapsicologia psicanalítica, afirma que  teóricos da psicanálise francesa desenvolveram uma clínica referenciada  no conceito de sujeito do desejo, na noção de recalque, na relação de opo sição eu-outro e na concepção do bebê como dependente do outro. Essa  clínica pode ser ilustrada com a metáfora do “dique holandês”, uma edifi cação construída para conter o avanço do mar. Nesse caso, a cultura é vista  como exterior ao eu e esse encontro é sempre traumático, pois é a partir da  interdição e da renúncia que o sujeito se constitui e faz a sua entrada na  cultura. Eu e Cultura se batem, assim como as águas se contrapõem a um  dique, que tenta conter a água.  

O autor fala ainda que os teóricos da psicanálise inglesa têm a clínica  referenciada pelo sujeito da ação, da criação, estando este em constante  transformação na relação de interdependência entre indivíduo e ambien te. Aqui, a metáfora é a dos “moinhos de vento”, nos quais se aproveita a for ça da natureza para trabalho útil. A relação com o outro e com a cultura é  de interdependência e não necessariamente traumática ou de contenção.  

Segundo Cavalcanti (2003), nessa experiência o indivíduo desenvol ve a continuidade no sentido da existência, agindo, criando e construindo  uma relação de parceria com o ambiente, sendo possível sustentar sua  capacidade criativa. Em nosso trabalho clínico institucional, nos basea mos nessa metáfora dos “moinhos de vento”, entendendo que a relação  entre sujeito e cultura não é necessariamente traumática e que podemos  aproveitar as potencialidades de cada um.  

A noção de subjetividade proposta por Winnicott (1975) ressalta que  esta é constituída na relação com o outro de uma forma interdependente,  não necessariamente traumática. Para Winnicott (1988, p. 82), “é certo  que um bebê não poderá tornar-se uma pessoa se só existir um ambiente  não-humano; nem mesmo a melhor das máquinas pode oferecer aquilo de  que necessita. Não, um ser humano se faz necessário…” Assim, um huma no só se constitui sujeito humano a partir da relação com outro humano.  

No início de nossas vidas, há uma indiferenciação entre o eu e o ou tro: a mãe precisa se adaptar às necessidades do bebê e estar de prontidão, 

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pois assim proporciona ao bebê a ilusão de que ele cria a realidade. À me dida que o bebê vai crescendo, é possível frustrá-lo por um curto período  e, assim, ele vai percebendo que o objeto pertence ao mundo externo e co meça a diferenciação eu e não-eu, mundo interno e externo. No entanto,  para Winnicott (1975), realidade psíquica interna e mundo externo não  são oposições, pois, ao mesmo tempo em que estão separadas, também es tão unidas por uma área intermediária, o espaço potencial, onde é possível  se instalar o viver criativo da brincadeira e das experiências culturais. Aos  poucos, a mãe introduz o seu próprio brincar e, assim, se prepara o cami nho para um brincar em conjunto. O outro tem importância fundamental  para a constituição subjetiva, e é nesse agir em conjunto que o sujeito se  sente existindo e usa seu viver criativo. 

Essa mesma relação de interdependência entre mãe e bebê, que vai  dando contornos para mundo interno e externo e ampliando ferramentas  psíquicas para lidar com o mundo, pode servir de metáfora para a clínica  psicanalítica. A sessão acontece como um espaço potencial, na sobreposi 

ção do brincar entre dois sujeitos, analista e analisando.  Partindo do referencial teórico winnicottiano, entendemos que o ana lista precisa ver o sujeito dito autista para além dos seus sintomas e do seu  diagnóstico, pois, dessa forma, é possível acolhê-lo e entender seus sintomas  como uma forma de comunicação singular. Assim, nos colocamos em um  lugar de parceria e de construção do novo a partir desse espaço potencial.  Ao pensarmos na genealogia da clínica no século XXI, podemos com preender o lugar e a função do diagnóstico em dois campos distintos: a  clínica composta por uma pluralidade dinâmica e a composta por um  reducionismo biológico. A primeira adota perspectivas múltiplas, mutua mente informativas que fornecem diferentes e complementares tipos de  compreensão. Nela são considerados os aspectos éticos, orgânicos, rela cionais, escolares, histórico-políticos, entre outros. A visão biológica, por  sua vez, localiza no corpo a origem dos dissabores experimentados na vida.  A explicação válida para os transtornos seria a descrição dos processos neu robiológicos implicados nos fenômenos.  

A clínica praticada pelo INCERE compartilha da visão dinâmica,  não reduzindo o conhecimento sobre o indivíduo aos sintomas que ele  apresenta, considera os fatores ambientais na origem e agravamento da 

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sintomatologia e pensa a técnica terapêutica a partir da singularidade e  não de padrões terapêuticos supostamente indicados para quadros clíni cos. Questionamo-nos constantemente sobre os riscos da medicalização  da vida, bem como da criação de prognósticos estatísticos que podem pro duzir destinos.  

O trabalho clínico institucional muito nos ensina sobre a importân cia de escutar e recorrer a outros saberes diante das inúmeras interrogações  que a prática clínica nos impõe. Fazendo parte de uma equipe de profis sionais de áreas e com experiências clínicas distintas, que atuam numa  instituição, percebemos que há um “esfumaçamento” das fronteiras entre  as disciplinas, e a psicanálise é o saber que nos atravessa e nos une na forma  de pensar clinicamente.  

A clínica do INCERE se divide em dois eixos: o dos consultórios  individuais, que não demandam acompanhamento da equipe, e a clíni ca TAE (terapia com acompanhamento em equipe), na qual existe uma  necessidade de acompanhamento pelos diversos profissionais da insti tuição. Esse trabalho institucional em equipe é pensado como essencial  para casos que exigem uma rede maior de cuidados em saúde mental.  O direcionamento para o enquadramento TAE pode ter relação com a  complexidade do sofrimento e/ou com a exigência da demanda familiar  e do paciente. Nessa clínica são comuns diagnósticos que se referem à  psicose, transtornos invasivos do desenvolvimento, transtorno do espectro  do autismo, entre outros.  

Quando um paciente é encaminhado para o INCERE, as entrevistas  iniciais são realizadas por um técnico. Se o paciente for menor de ida de, fazemos entrevistas com os responsáveis pela criança ou adolescente.  As entrevistas buscam os aspectos particulares da história daquele sujeito  para o entendimento do seu sofrimento psíquico. Posteriormente, o caso  é apresentado pelo profissional na reunião em que todos os membros da  equipe se fazem presentes.  

O encaminhamento do caso e as indicações terapêuticas são pen sados por todos a partir do que foi proposto pelo terapeuta que avaliou  o paciente. Também é comum o paciente ser avaliado por mais de um  profissional, já que se trata de uma equipe. Nesse caso, os profissionais  apresentam juntos as respectivas entrevistas. Vale ressaltar que não há 

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uma regra na conduta de recebimento dos pacientes. Eles podem ini ciar as entrevistas com qualquer profissional da equipe de acordo com  a demanda de cada caso e de cada família. Caso o profissional perceba a  necessidade de o paciente ser avaliado por outra especificidade, ele fará o  encaminhamento. Em alguns casos é possível fazer o encaminhamento  já nas avaliações, mas em outros percebemos que esse encaminhamento  precisa ser construído com os pais e o paciente até que seja efetivado. Com  isso entendemos que, embora o paciente apresente comprometimento  em áreas distintas do desenvolvimento, não significa necessariamente que  ele iniciará simultaneamente variadas intervenções.  

Traremos como exemplo um caso compartilhado em reunião de dis cussão clínica de uma criança de 2 anos e 8 meses com atraso na lingua gem e que havia sido encaminhada inicialmente para a fonoaudiologia.  Após a avaliação fonoaudiológica, foi percebida a necessidade de a criança  iniciar primeiramente a psicoterapia, pois, mesmo com a identificação do  atraso de linguagem, havia questões anteriores, referentes à diferenciação  eu-outro e ao estabelecimento de vínculos, que precisavam ser cuidadas  antes que a intervenção de fonoaudiologia se iniciasse. 

O projeto clínico é singular a cada paciente, podendo ser revisto ao  longo do processo terapêutico, pois entendemos que a clínica é soberana  e nos dá indicativos do que seja necessário para cada indivíduo. Em nosso  percurso clínico, alguns pacientes que haviam recebido o diagnóstico de  autismo tiveram alta dos seus atendimentos, pois entendemos que, na 

quele momento, não havia demanda que justificasse a permanência nas  terapêuticas, mesmo que o paciente ainda apresentasse alguns impasses na  comunicação e na interação social. Não temos como objetivo normatizar  o desenvolvimento de nossos pacientes, e sim encontrar junto a ele e à  família uma forma possível de estar no mundo.  

Nós oferecemos atendimentos individuais nas áreas de psicologia,  psicanálise, fonoaudiologia e atendimentos em grupo. Também temos  parceria com um profissional que desenvolve um trabalho na área de arte- -educação. Além dos atendimentos, procuramos ter proximidade com as  escolas e os profissionais de outras áreas que também atendem aos nossos  pacientes. Dessa forma, realizamos o trabalho clínico ampliado, em rede,  considerando as diferentes necessidades de cada sujeito. 

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Nosso objetivo ao atender pessoas com o diagnóstico de TEA é pensar  em um projeto clínico singular em que o sujeito possa se sentir ele mesmo,  desenvolvendo um sentido próprio de existir e de continuidade da existên cia através da criatividade, ou seja, construirmos um projeto adequado às  suas necessidades e possibilidades. Segundo Cavalcanti (2003), dessa for ma conseguiremos positivar certos modos de subjetivação que não cum prem, nem minimamente, determinados pré-requisitos metapsicológicos  das neuroses.  

Nós, enquanto terapeutas, precisamos adaptar o ambiente e nos  adaptarmos para podermos ser a ponte necessária para que os pacientes  possam sustentar o seu ser, viabilizando a integração e o viver criativo. Esse  posicionamento clínico se faz necessário para que possamos estar na pre 

sença do outro, reconhecendo sua alteridade. Entendemos que os com portamentos autísticos, como estereotipias, vocalizações, atos agressivos,  entre outros, são produções únicas de cada sujeito, mostrando uma forma  possível de existir no mundo, e que querem comunicar algo. A psicanálise  propõe a escuta dessa comunicação.  

A partir desse reconhecimento, podemos analisar quais são as inter venções necessárias para que um bom trabalho clínico aconteça, desde  adaptações no setting até pensar em uma clínica ampliada para além das  paredes do consultório. Um de nossos pacientes costuma apresentar eco lalias e estas se referem a vídeos que ele assiste no YouTube, mas perce bemos que ele utiliza essas frases quando quer comunicar algo e dentro  de um contexto. Outro paciente costumava nos comunicar quando algo  não estava bem consigo através do aparecimento de rituais bem rígidos. A  partir dessa comunicação, víamos junto com ele e a família quais seriam  as intervenções de cuidado.  

Também temos vivido a experiência de alguns pacientes com diag nóstico de autismo e apraxia severa da fala de se recusarem a utilizar a  prancha de comunicação, uma ferramenta de comunicação alternativa.  Percebemos que essas pessoas têm encontrado outras formas de se comu nicar, para além da linguagem formal, como o uso de tablets e vídeos para  se fazerem entender, mesmo com a prancha instalada em seus aparelhos.  Como foi dito anteriormente, procuramos ouvir o que os pacientes têm a  nos comunicar e, assim, sua singularidade pode ser escutada e respeitada. 

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Em alguns casos, realizamos atendimentos que envolvem a arte, a  culinária e até mesmo saídas da instituição para podermos proporcionar  esse viver criativo. Um exemplo é quando um paciente convocou seu ana lista a viver a experiência junto com ele de ir a uma banca de revista para  que ele pudesse escolher o que comprar. Entendemos que essas experiên cias de sessões externas possuem um potencial de subjetivação do pacien te, pois, na relação terapêutica, ele pode ser visto e reconhecido em suas  singularidades e potencialidades.  

Um outro recorte de nossa prática clínica é o caso de um garoto  que foi encaminhado para o atendimento fonoaudiológico por uma psi cóloga que não era do INCERE, apresentando questões de fala (trocas  articulatórias) e restrições alimentares desde a retirada da mama em vir tude do nascimento do irmão. Ao longo da sua vida, sempre que algo  significativo o afetava emocionalmente, como a separação da professora  da escola, ele apresentava uma maior seletividade alimentar. O trabalho  fonoaudiológico foi iniciado com as questões articulatórias com todo  cuidado para que não houvesse uma invasão na região oral do paciente.  Após a aquisição do fonema, do vínculo e da transferência bem esta belecidos com os pais e a criança, a fonoaudióloga passou ao trabalho  com as questões alimentares. Esse trabalho se iniciou com a pesquisa de  experiências, misturando ingredientes culinários como farinha, óleo,  corantes alimentares, e foi evoluindo para a feitura de macarrão, batatas  chips, pães e biscoitos coloridos.  

Todo o processo foi realizado respeitando o tempo e o desejo da crian ça, desde resistência inicial em ir conhecer a cozinha do INCERE até a  transferência para as sessões na cozinha com total trânsito e conhecimento  dos utensílios culinários, o medo inicial de se sujar, o pedido de luvas para  manusear a massa até tingir os dedos com o corante e não reclamar. O  pedido para levar os materiais de cozinha para casa e a liberdade de poder  provar o que quisesse sem se sentir pressionado possibilitaram uma am 

pliação dos alimentos escolhidos.  

Nosso atendimento em grupo terapêutico tem esse mesmo objetivo.  Segundo Cavalcanti (2006), um grupo é pensado pela superposição do  brincar de seus atores, crianças e terapeutas, numa espécie de espaço vir tual, coletivo e protegido, sustentado pelo fazer em conjunto. Ele existe ou 

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deixa de existir à medida que seus participantes investem ou desinvestem  nesse espaço potencial. O grupo possibilita a seus participantes criar, ex perimentar outros modos de agir, reinventarem-se e recriarem-se através  da ação e da palavra, cujo poder criador e transformador é implementado  nesse espaço ilusional.  

O grupo no INCERE não é montado a partir de referenciais identitá rios, temáticos ou com atividades pré-estabelecidas. A faixa etária é levada  em consideração, mas apenas como forma de unir pessoas que tenham  “tempos subjetivos” e interesses parecidos e, assim, se sintam pertencentes  a um espaço compartilhado.  

Assim, a experiência da terapêutica em grupo e da clínica amplia da (oficinas de culinária, oficinas de pintura, sessões externas na cidade,  entre outros), a partir do fazer/brincar compartilhado, ampliam os cam pos identificatórios, marcados pela diversidade e pela pluralidade de seus  componentes, impulsionando novos modos de existência. Além disso,  enquanto espaços constitutivos de subjetividade, elas permitem manter  a comunicação e interligam as várias dimensões das experiências do eu.  Para Cavalcanti (2006):  

A tendência à repetição atualizada na transferência tem como efeito o  estreitamento do espectro das experiências do eu. Diz da cristalização de certas  posições que insistem em se reencenar numa espécie de movimento circular  ininterrupto enrijecendo o eu, roubando-lhe a plasticidade e a dimensão da  pluralidade. Nesse contexto, o grupo pode representar um espaço plural, o ce 

nário da ação e da palavra que carregam a possibilidade de interromper o ciclo  de repetição e inaugurar algo novo, permitindo aos participantes do grupo se  experimentarem outros, alargando o repertório de experiências de si e dos ou tros. (CAVALCANTI, 2006, p. 144). 

Para ilustrar o que foi explicitado acima, traremos um pequeno recor te clínico de um momento vivido no grupo. Em alguns de nossos grupos  terapêuticos acontece um momento de lanche compartilhado onde cada  participante leva o seu lanche e todos se reúnem para partilhar desse mo mento. Esse formato de grupo é pensado a partir da demanda clínica de al guns pacientes com seletividade alimentar. Recordamos de Pablo (nome 

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fictício), um garoto de 7 anos que fazia grandes restrições aos alimentos.  Ele tomava somente um tipo de suco (amarelo) e biscoitos específicos, se  recusando a experimentar outros tipos de lanches. A partir da experiência  no grupo terapêutico, Pablo foi aos poucos ficando curioso em relação  ao lanche dos demais participantes do grupo, depois aceitou lamber um  pedaço de bolo e, num outro momento, comeu o bolo. Aos poucos ele  ampliou seu paladar e, com o tempo, passou a ser reconhecido no grupo  como um “bon gourmand” apreciando diferentes tipos de bolos, biscoitos  e outros lanches. Nessa experiência, foi preciso repetir e repetir, ou seja,  produzir uma experiência de continuidade, sendo o espaço do grupo o  guardião dessa continuidade e da constância das experiências ali partilha das, para que Pablo pudesse se apresentar diferente.  

Diante de tudo que foi exposto, o INCERE busca problematizar o  diagnóstico na clínica para trabalhar de forma ética, compreendendo as  fronteiras entre saúde e doença, pois, assim como Winnicott, entendemos  que o estar saudável tem relação direta com a capacidade do indivíduo de  viver criativamente. Em contrapartida, a noção de adoecimento passaria a  ser norteada pela perda da criatividade na vida ou pela sua inibição.  

Com esse esfumaçamento das fronteiras, o trabalho clínico com a  psicanálise visa a abertura de possibilidades para que cada paciente possa  viver e contribuir na sociedade humana em sua singularidade, para além  dos reducionismos. Ao longo desses 23 anos de existência, passaram por  nós inúmeros pacientes com o diagnóstico de autismo e podemos afirmar  que, para cada um deles, foi criado um projeto terapêutico pensando em  sua singularidade, em sua comunicação sobre si mesmo e propondo esse  viver criativo. A clínica não visa buscar a cura, mas é o lugar por excelên cia dos cuidados que contribuem para o viver singular e criativo, porém  permitindo a cada um deparar-se com a própria dor. 

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REFERÊNCIAS 

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de  transtornos mentais [recurso eletrônico]: DSM-5. [tradução: Maria Inês Corrêa  Nascimento … et al.] ; revisão técnica: Aristides Volpato Cordioli … [et al.], 5. ed.,  Dados eletrônicos. Porto Alegre: Artmed, 2014. 

CAVALCANTI, A. E. A clínica psicanalítica na contemporaneidade: impasses e redescri ções. In: Estados Gerais da Psicanálise: Segundo Encontro Mundial, 2003, Rio de  Janeiro. [Anais]. Rio de Janeiro, 2003. 

CAVALCANTI, A. E. Ser Brincando: Sobre Psicanálise em grupo com as Crianças. In:  ROCHA, P. (org.). Cataventos. São Paulo: Escuta, 2006, p. 144. 

CAVALCANTI, A. E. B.; CARDOSO, C.; ROCHA, P. Reflexões sobre a Instituição Psi canalítica na Contemporaneidade. In: KEHL, M. R. (org.). Função Fraterna. Rio  de Janeiro: Relume-Dumará, 2000, p. 111-142 

COSTA, J. F. Playdoier pelos irmãos. In: KEHL, R. R. (org.) Função Fraterna. Rio de  Janeiro: Relume-Dumará, 2000, p. 7-30. 

FREUD, S. Caminhos da terapia psicanalítica. In: FREUD, S. História de uma neurose  infantil (“O Homem dos Lobos”), Além do princípio do prazer e outros textos.  (1917-1920). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Publicado originalmente  em 1919. 

WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Tradução: J. O. A. Abreu, V. Nobre. Rio  de Janeiro: Imago, 1975. 

WINNICOTT, D. W. Human Nature. Londres: Winnicott Trust, 1988. 

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