INCERE: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA CLÍNICA INTERDISCIPLINAR COM PESSOAS COM TEA
Luana Lourenço Magalhães Chaves3
Georgia Porto Triandopolis4
Patrícia de Sousa Gadelha Costa5
Madalena de Queiroz Lima Verde6
Ahistória do autismo é acompanhada por inúmeras discussões no cená rio sociopolítico, problematizando fronteiras éticas, jurídicas e cientí ficas. A partir de 2013, com a publicação da quinta edição do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) (2014), esse quadro clínico tem sido designado com o nome de transtorno do espectro do autismo – TEA. Ao longo dos anos, inúmeros debates têm sido reali zados sobre quais práticas clínicas são mais eficientes para o tratamen to do TEA. Situar o autismo em diferentes perspectivas teóricas nos faz
compreender as estratégias plurais de trabalho empregadas com as pessoas classificadas a partir dessa categoria com o intuito de atenuar o sofrimento psíquico e favorecer o desenvolvimento emocional.
Acreditamos que o relato de experiência apresentado aqui será im portante, pois nos dará a oportunidade de expor a relevância da psicanálise nos cuidados com o tratamento do autismo, uma vez que nosso saber clí nico tem sido criticado e até “desaconselhado” por alguns profissionais no trabalho com pessoas com esse diagnóstico.
- Psicanalista, atual presidente e membro da equipe interdisciplinar do INCERE, coordenadora téc nica do Programa de Extensão da UFC – Clínica Estética e Política do Cuidado – CEPC, com formação em psicanálise pelo Sedes Sapientiae – SP e formação em clínica da infância e adolescência pelo CPPL-PE.
- Psicanalista e membro da equipe interdisciplinar do INCERE, com formação em psicanálise pelo Sedes Sapientiae-SP e formação em clínica da infância e adolescência pelo CPPL-PE.
- Fonoaudióloga, sócia-fundadora e membro da equipe interdisciplinar do INCERE, com formação em psicanálise pelo Sedes Sapientiae-SP, especialização em infância, linguagem, alfabetização e especialista em gerontologia pela Universidade Estadual do Ceará.
- Psicanalista, sócia-fundadora e membro da equipe interdisciplinar do INCERE, monitora na pesquisa Multicêntrica de Indicadores de Risco para o Desenvolvimento Infantil-IRDI em Fortaleza (2001), mestre em psicologia pela Universidade de Fortaleza, clínica e cientificamente interessada nos extremos da vida.
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O presente artigo visa transmitir como a psicanálise pode sustentar uma prática clínica interdisciplinar institucional realizada com pessoas com diagnóstico de autismo. Nosso relato se baseia na experiência de uma organização clínica institucional que existe desde 2000 na cidade de For
taleza, o Centro de Referência à Infância – INCERE. Esta instituição é formada por uma equipe interdisciplinar, incluindo em sua composição atual psicólogas, psicanalistas e fonoaudióloga. Há 23 anos, portanto, o INCERE se dedica ao atendimento clínico, atravessado pela psicanálise, a crianças, adolescentes, adultos e idosos em sofrimento psíquico grave e ao acompanhamento de seus familiares.
A teoria psicanalítica embasa o trabalho no INCERE desde o seu nascimento, tanto na atuação clínica quanto na gestão institucional. O INCERE tem como propósito oferecer tratamento clínico interdisciplinar a crianças, adolescentes e adultos com transtornos graves no desenvolvi
mento que apresentam comprometimentos no campo das relações sociais e da comunicação verbal e/ou não verbal e alterações na sensorialidade. Além disso, são abordados também casos de intervenção precoce. A clínica com casos de autismo nos levou, e continua levando, a discutir e a criar dispositivos clínicos específicos para o atendimento a essas pessoas.
Para falarmos sobre tal experiência, será necessário discorrer sobre alguns importantes referenciais teóricos psicanalíticos e sobre a clínica do século XXI, pois eles fundamentam a existência dessa forma de trabalho. Para o INCERE, o trabalho institucional e interdisciplinar é relevante para nossa forma de pensar a constituição humana.
Freud, em 1919, já previa a presença da psicanálise numa institui ção. Em seu texto “Caminhos da terapia psicanalítica”, ele projetou para um futuro preferencialmente não distante a aplicação ou adaptação dos princípios da psicanálise fora do contexto restrito da análise tradicional e individual. Nesse mesmo texto, Freud [1919]/(2010) falou da possível criação de instituições que oferecessem tratamento psicanalítico a pessoas economicamente menos favorecidas, e, para isso, seria necessário adaptar a técnica analítica tradicional.
Agora suponhamos que alguma organização nos permitisse aumentar nosso número de forma tal que bastassem para o tratamento de grandes quanti-
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dades de pessoas. […] Então haverá para nós a tarefa de adaptar nossa técnica às novas condições. […] Mas, como quer que se configure essa psicoterapia para o povo, quaisquer que sejam os elementos que a componham, suas partes mais eficientes e mais importantes continuarão a ser aquelas tomadas da psicanálise rigorosa e não tendenciosa. (FREUD, 2010, p. 291-292).
Diante disso, podemos ver que Freud pôde antecipar a possibilidade de transposição da psicanálise para outros contextos além da clínica indi vidual, discussão esta ainda relevante nos dias atuais.
Muitos avanços ocorreram no campo da psicanálise no que se refere à prática institucional. É sabido que o modelo tradicional das instituições é regido por burocratização, hierarquização, enrijecimento das regras e leis, e discurso do mestre. Isso vai na contramão da visão compartilhada da psicanálise enquanto saber marcado pela exigência radical de susten
tar na produção (científica, clínica e institucional) um posicionamento contínuo de interrogação, de questionamento e de convivência com as incertezas e impossibilidades.
O trabalho em equipe interdisciplinar no INCERE se ancora no mo delo de gestão horizontal, não burocratizante, alicerçado na admissão da pluralidade, na interrogação constante e nas relações de reciprocidade. Para Cavalcanti, Cardoso e Rocha (2000),
[…] a sociedade de semelhantes possibilita encontrar igualdades na diferen ça e diferenças na igualdade, permitindo a construção de laços identificatórios em que o outro pode ser reconhecido como semelhante, aparecendo em sua dimensão de alteridade e abrindo espaço para o novo, mas sendo, ao mesmo tem po, um outro com quem se tem algo em comum. (CAVALCANTI; CARDOSO; ROCHA, 2000, p.40).
O trabalho clínico institucional muito nos ensina sobre a importân cia de escutar e recorrer a outros saberes diante das inúmeras interrogações que a prática clínica nos impõe, mas essa escuta só nos é possível por conta da pluralidade teórica da psicanálise.
Freud, mesmo atendendo um público restrito de jovens adultos neu róticos, abriu o caminho para que diferentes conjuntos teórico-conceituais
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viessem a se desenvolver, e isso produziu clínicas diferentes e múltiplas. Assim, experiências diversas no campo psicanalítico originaram condutas clínicas distintas e um enriquecimento teórico ao longo dos anos.
Costa (2000), revisando a metapsicologia psicanalítica, afirma que teóricos da psicanálise francesa desenvolveram uma clínica referenciada no conceito de sujeito do desejo, na noção de recalque, na relação de opo sição eu-outro e na concepção do bebê como dependente do outro. Essa clínica pode ser ilustrada com a metáfora do “dique holandês”, uma edifi cação construída para conter o avanço do mar. Nesse caso, a cultura é vista como exterior ao eu e esse encontro é sempre traumático, pois é a partir da interdição e da renúncia que o sujeito se constitui e faz a sua entrada na cultura. Eu e Cultura se batem, assim como as águas se contrapõem a um dique, que tenta conter a água.
O autor fala ainda que os teóricos da psicanálise inglesa têm a clínica referenciada pelo sujeito da ação, da criação, estando este em constante transformação na relação de interdependência entre indivíduo e ambien te. Aqui, a metáfora é a dos “moinhos de vento”, nos quais se aproveita a for ça da natureza para trabalho útil. A relação com o outro e com a cultura é de interdependência e não necessariamente traumática ou de contenção.
Segundo Cavalcanti (2003), nessa experiência o indivíduo desenvol ve a continuidade no sentido da existência, agindo, criando e construindo uma relação de parceria com o ambiente, sendo possível sustentar sua capacidade criativa. Em nosso trabalho clínico institucional, nos basea mos nessa metáfora dos “moinhos de vento”, entendendo que a relação entre sujeito e cultura não é necessariamente traumática e que podemos aproveitar as potencialidades de cada um.
A noção de subjetividade proposta por Winnicott (1975) ressalta que esta é constituída na relação com o outro de uma forma interdependente, não necessariamente traumática. Para Winnicott (1988, p. 82), “é certo que um bebê não poderá tornar-se uma pessoa se só existir um ambiente não-humano; nem mesmo a melhor das máquinas pode oferecer aquilo de que necessita. Não, um ser humano se faz necessário…” Assim, um huma no só se constitui sujeito humano a partir da relação com outro humano.
No início de nossas vidas, há uma indiferenciação entre o eu e o ou tro: a mãe precisa se adaptar às necessidades do bebê e estar de prontidão,
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pois assim proporciona ao bebê a ilusão de que ele cria a realidade. À me dida que o bebê vai crescendo, é possível frustrá-lo por um curto período e, assim, ele vai percebendo que o objeto pertence ao mundo externo e co meça a diferenciação eu e não-eu, mundo interno e externo. No entanto, para Winnicott (1975), realidade psíquica interna e mundo externo não são oposições, pois, ao mesmo tempo em que estão separadas, também es tão unidas por uma área intermediária, o espaço potencial, onde é possível se instalar o viver criativo da brincadeira e das experiências culturais. Aos poucos, a mãe introduz o seu próprio brincar e, assim, se prepara o cami nho para um brincar em conjunto. O outro tem importância fundamental para a constituição subjetiva, e é nesse agir em conjunto que o sujeito se sente existindo e usa seu viver criativo.
Essa mesma relação de interdependência entre mãe e bebê, que vai dando contornos para mundo interno e externo e ampliando ferramentas psíquicas para lidar com o mundo, pode servir de metáfora para a clínica psicanalítica. A sessão acontece como um espaço potencial, na sobreposi
ção do brincar entre dois sujeitos, analista e analisando. Partindo do referencial teórico winnicottiano, entendemos que o ana lista precisa ver o sujeito dito autista para além dos seus sintomas e do seu diagnóstico, pois, dessa forma, é possível acolhê-lo e entender seus sintomas como uma forma de comunicação singular. Assim, nos colocamos em um lugar de parceria e de construção do novo a partir desse espaço potencial. Ao pensarmos na genealogia da clínica no século XXI, podemos com preender o lugar e a função do diagnóstico em dois campos distintos: a clínica composta por uma pluralidade dinâmica e a composta por um reducionismo biológico. A primeira adota perspectivas múltiplas, mutua mente informativas que fornecem diferentes e complementares tipos de compreensão. Nela são considerados os aspectos éticos, orgânicos, rela cionais, escolares, histórico-políticos, entre outros. A visão biológica, por sua vez, localiza no corpo a origem dos dissabores experimentados na vida. A explicação válida para os transtornos seria a descrição dos processos neu robiológicos implicados nos fenômenos.
A clínica praticada pelo INCERE compartilha da visão dinâmica, não reduzindo o conhecimento sobre o indivíduo aos sintomas que ele apresenta, considera os fatores ambientais na origem e agravamento da
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sintomatologia e pensa a técnica terapêutica a partir da singularidade e não de padrões terapêuticos supostamente indicados para quadros clíni cos. Questionamo-nos constantemente sobre os riscos da medicalização da vida, bem como da criação de prognósticos estatísticos que podem pro duzir destinos.
O trabalho clínico institucional muito nos ensina sobre a importân cia de escutar e recorrer a outros saberes diante das inúmeras interrogações que a prática clínica nos impõe. Fazendo parte de uma equipe de profis sionais de áreas e com experiências clínicas distintas, que atuam numa instituição, percebemos que há um “esfumaçamento” das fronteiras entre as disciplinas, e a psicanálise é o saber que nos atravessa e nos une na forma de pensar clinicamente.
A clínica do INCERE se divide em dois eixos: o dos consultórios individuais, que não demandam acompanhamento da equipe, e a clíni ca TAE (terapia com acompanhamento em equipe), na qual existe uma necessidade de acompanhamento pelos diversos profissionais da insti tuição. Esse trabalho institucional em equipe é pensado como essencial para casos que exigem uma rede maior de cuidados em saúde mental. O direcionamento para o enquadramento TAE pode ter relação com a complexidade do sofrimento e/ou com a exigência da demanda familiar e do paciente. Nessa clínica são comuns diagnósticos que se referem à psicose, transtornos invasivos do desenvolvimento, transtorno do espectro do autismo, entre outros.
Quando um paciente é encaminhado para o INCERE, as entrevistas iniciais são realizadas por um técnico. Se o paciente for menor de ida de, fazemos entrevistas com os responsáveis pela criança ou adolescente. As entrevistas buscam os aspectos particulares da história daquele sujeito para o entendimento do seu sofrimento psíquico. Posteriormente, o caso é apresentado pelo profissional na reunião em que todos os membros da equipe se fazem presentes.
O encaminhamento do caso e as indicações terapêuticas são pen sados por todos a partir do que foi proposto pelo terapeuta que avaliou o paciente. Também é comum o paciente ser avaliado por mais de um profissional, já que se trata de uma equipe. Nesse caso, os profissionais apresentam juntos as respectivas entrevistas. Vale ressaltar que não há
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uma regra na conduta de recebimento dos pacientes. Eles podem ini ciar as entrevistas com qualquer profissional da equipe de acordo com a demanda de cada caso e de cada família. Caso o profissional perceba a necessidade de o paciente ser avaliado por outra especificidade, ele fará o encaminhamento. Em alguns casos é possível fazer o encaminhamento já nas avaliações, mas em outros percebemos que esse encaminhamento precisa ser construído com os pais e o paciente até que seja efetivado. Com isso entendemos que, embora o paciente apresente comprometimento em áreas distintas do desenvolvimento, não significa necessariamente que ele iniciará simultaneamente variadas intervenções.
Traremos como exemplo um caso compartilhado em reunião de dis cussão clínica de uma criança de 2 anos e 8 meses com atraso na lingua gem e que havia sido encaminhada inicialmente para a fonoaudiologia. Após a avaliação fonoaudiológica, foi percebida a necessidade de a criança iniciar primeiramente a psicoterapia, pois, mesmo com a identificação do atraso de linguagem, havia questões anteriores, referentes à diferenciação eu-outro e ao estabelecimento de vínculos, que precisavam ser cuidadas antes que a intervenção de fonoaudiologia se iniciasse.
O projeto clínico é singular a cada paciente, podendo ser revisto ao longo do processo terapêutico, pois entendemos que a clínica é soberana e nos dá indicativos do que seja necessário para cada indivíduo. Em nosso percurso clínico, alguns pacientes que haviam recebido o diagnóstico de autismo tiveram alta dos seus atendimentos, pois entendemos que, na
quele momento, não havia demanda que justificasse a permanência nas terapêuticas, mesmo que o paciente ainda apresentasse alguns impasses na comunicação e na interação social. Não temos como objetivo normatizar o desenvolvimento de nossos pacientes, e sim encontrar junto a ele e à família uma forma possível de estar no mundo.
Nós oferecemos atendimentos individuais nas áreas de psicologia, psicanálise, fonoaudiologia e atendimentos em grupo. Também temos parceria com um profissional que desenvolve um trabalho na área de arte- -educação. Além dos atendimentos, procuramos ter proximidade com as escolas e os profissionais de outras áreas que também atendem aos nossos pacientes. Dessa forma, realizamos o trabalho clínico ampliado, em rede, considerando as diferentes necessidades de cada sujeito.
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Nosso objetivo ao atender pessoas com o diagnóstico de TEA é pensar em um projeto clínico singular em que o sujeito possa se sentir ele mesmo, desenvolvendo um sentido próprio de existir e de continuidade da existên cia através da criatividade, ou seja, construirmos um projeto adequado às suas necessidades e possibilidades. Segundo Cavalcanti (2003), dessa for ma conseguiremos positivar certos modos de subjetivação que não cum prem, nem minimamente, determinados pré-requisitos metapsicológicos das neuroses.
Nós, enquanto terapeutas, precisamos adaptar o ambiente e nos adaptarmos para podermos ser a ponte necessária para que os pacientes possam sustentar o seu ser, viabilizando a integração e o viver criativo. Esse posicionamento clínico se faz necessário para que possamos estar na pre
sença do outro, reconhecendo sua alteridade. Entendemos que os com portamentos autísticos, como estereotipias, vocalizações, atos agressivos, entre outros, são produções únicas de cada sujeito, mostrando uma forma possível de existir no mundo, e que querem comunicar algo. A psicanálise propõe a escuta dessa comunicação.
A partir desse reconhecimento, podemos analisar quais são as inter venções necessárias para que um bom trabalho clínico aconteça, desde adaptações no setting até pensar em uma clínica ampliada para além das paredes do consultório. Um de nossos pacientes costuma apresentar eco lalias e estas se referem a vídeos que ele assiste no YouTube, mas perce bemos que ele utiliza essas frases quando quer comunicar algo e dentro de um contexto. Outro paciente costumava nos comunicar quando algo não estava bem consigo através do aparecimento de rituais bem rígidos. A partir dessa comunicação, víamos junto com ele e a família quais seriam as intervenções de cuidado.
Também temos vivido a experiência de alguns pacientes com diag nóstico de autismo e apraxia severa da fala de se recusarem a utilizar a prancha de comunicação, uma ferramenta de comunicação alternativa. Percebemos que essas pessoas têm encontrado outras formas de se comu nicar, para além da linguagem formal, como o uso de tablets e vídeos para se fazerem entender, mesmo com a prancha instalada em seus aparelhos. Como foi dito anteriormente, procuramos ouvir o que os pacientes têm a nos comunicar e, assim, sua singularidade pode ser escutada e respeitada.
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Em alguns casos, realizamos atendimentos que envolvem a arte, a culinária e até mesmo saídas da instituição para podermos proporcionar esse viver criativo. Um exemplo é quando um paciente convocou seu ana lista a viver a experiência junto com ele de ir a uma banca de revista para que ele pudesse escolher o que comprar. Entendemos que essas experiên cias de sessões externas possuem um potencial de subjetivação do pacien te, pois, na relação terapêutica, ele pode ser visto e reconhecido em suas singularidades e potencialidades.
Um outro recorte de nossa prática clínica é o caso de um garoto que foi encaminhado para o atendimento fonoaudiológico por uma psi cóloga que não era do INCERE, apresentando questões de fala (trocas articulatórias) e restrições alimentares desde a retirada da mama em vir tude do nascimento do irmão. Ao longo da sua vida, sempre que algo significativo o afetava emocionalmente, como a separação da professora da escola, ele apresentava uma maior seletividade alimentar. O trabalho fonoaudiológico foi iniciado com as questões articulatórias com todo cuidado para que não houvesse uma invasão na região oral do paciente. Após a aquisição do fonema, do vínculo e da transferência bem esta belecidos com os pais e a criança, a fonoaudióloga passou ao trabalho com as questões alimentares. Esse trabalho se iniciou com a pesquisa de experiências, misturando ingredientes culinários como farinha, óleo, corantes alimentares, e foi evoluindo para a feitura de macarrão, batatas chips, pães e biscoitos coloridos.
Todo o processo foi realizado respeitando o tempo e o desejo da crian ça, desde resistência inicial em ir conhecer a cozinha do INCERE até a transferência para as sessões na cozinha com total trânsito e conhecimento dos utensílios culinários, o medo inicial de se sujar, o pedido de luvas para manusear a massa até tingir os dedos com o corante e não reclamar. O pedido para levar os materiais de cozinha para casa e a liberdade de poder provar o que quisesse sem se sentir pressionado possibilitaram uma am
pliação dos alimentos escolhidos.
Nosso atendimento em grupo terapêutico tem esse mesmo objetivo. Segundo Cavalcanti (2006), um grupo é pensado pela superposição do brincar de seus atores, crianças e terapeutas, numa espécie de espaço vir tual, coletivo e protegido, sustentado pelo fazer em conjunto. Ele existe ou
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deixa de existir à medida que seus participantes investem ou desinvestem nesse espaço potencial. O grupo possibilita a seus participantes criar, ex perimentar outros modos de agir, reinventarem-se e recriarem-se através da ação e da palavra, cujo poder criador e transformador é implementado nesse espaço ilusional.
O grupo no INCERE não é montado a partir de referenciais identitá rios, temáticos ou com atividades pré-estabelecidas. A faixa etária é levada em consideração, mas apenas como forma de unir pessoas que tenham “tempos subjetivos” e interesses parecidos e, assim, se sintam pertencentes a um espaço compartilhado.
Assim, a experiência da terapêutica em grupo e da clínica amplia da (oficinas de culinária, oficinas de pintura, sessões externas na cidade, entre outros), a partir do fazer/brincar compartilhado, ampliam os cam pos identificatórios, marcados pela diversidade e pela pluralidade de seus componentes, impulsionando novos modos de existência. Além disso, enquanto espaços constitutivos de subjetividade, elas permitem manter a comunicação e interligam as várias dimensões das experiências do eu. Para Cavalcanti (2006):
A tendência à repetição atualizada na transferência tem como efeito o estreitamento do espectro das experiências do eu. Diz da cristalização de certas posições que insistem em se reencenar numa espécie de movimento circular ininterrupto enrijecendo o eu, roubando-lhe a plasticidade e a dimensão da pluralidade. Nesse contexto, o grupo pode representar um espaço plural, o ce
nário da ação e da palavra que carregam a possibilidade de interromper o ciclo de repetição e inaugurar algo novo, permitindo aos participantes do grupo se experimentarem outros, alargando o repertório de experiências de si e dos ou tros. (CAVALCANTI, 2006, p. 144).
Para ilustrar o que foi explicitado acima, traremos um pequeno recor te clínico de um momento vivido no grupo. Em alguns de nossos grupos terapêuticos acontece um momento de lanche compartilhado onde cada participante leva o seu lanche e todos se reúnem para partilhar desse mo mento. Esse formato de grupo é pensado a partir da demanda clínica de al guns pacientes com seletividade alimentar. Recordamos de Pablo (nome
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fictício), um garoto de 7 anos que fazia grandes restrições aos alimentos. Ele tomava somente um tipo de suco (amarelo) e biscoitos específicos, se recusando a experimentar outros tipos de lanches. A partir da experiência no grupo terapêutico, Pablo foi aos poucos ficando curioso em relação ao lanche dos demais participantes do grupo, depois aceitou lamber um pedaço de bolo e, num outro momento, comeu o bolo. Aos poucos ele ampliou seu paladar e, com o tempo, passou a ser reconhecido no grupo como um “bon gourmand” apreciando diferentes tipos de bolos, biscoitos e outros lanches. Nessa experiência, foi preciso repetir e repetir, ou seja, produzir uma experiência de continuidade, sendo o espaço do grupo o guardião dessa continuidade e da constância das experiências ali partilha das, para que Pablo pudesse se apresentar diferente.
Diante de tudo que foi exposto, o INCERE busca problematizar o diagnóstico na clínica para trabalhar de forma ética, compreendendo as fronteiras entre saúde e doença, pois, assim como Winnicott, entendemos que o estar saudável tem relação direta com a capacidade do indivíduo de viver criativamente. Em contrapartida, a noção de adoecimento passaria a ser norteada pela perda da criatividade na vida ou pela sua inibição.
Com esse esfumaçamento das fronteiras, o trabalho clínico com a psicanálise visa a abertura de possibilidades para que cada paciente possa viver e contribuir na sociedade humana em sua singularidade, para além dos reducionismos. Ao longo desses 23 anos de existência, passaram por nós inúmeros pacientes com o diagnóstico de autismo e podemos afirmar que, para cada um deles, foi criado um projeto terapêutico pensando em sua singularidade, em sua comunicação sobre si mesmo e propondo esse viver criativo. A clínica não visa buscar a cura, mas é o lugar por excelên cia dos cuidados que contribuem para o viver singular e criativo, porém permitindo a cada um deparar-se com a própria dor.
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REFERÊNCIAS
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CAVALCANTI, A. E. A clínica psicanalítica na contemporaneidade: impasses e redescri ções. In: Estados Gerais da Psicanálise: Segundo Encontro Mundial, 2003, Rio de Janeiro. [Anais]. Rio de Janeiro, 2003.
CAVALCANTI, A. E. Ser Brincando: Sobre Psicanálise em grupo com as Crianças. In: ROCHA, P. (org.). Cataventos. São Paulo: Escuta, 2006, p. 144.
CAVALCANTI, A. E. B.; CARDOSO, C.; ROCHA, P. Reflexões sobre a Instituição Psi canalítica na Contemporaneidade. In: KEHL, M. R. (org.). Função Fraterna. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2000, p. 111-142
COSTA, J. F. Playdoier pelos irmãos. In: KEHL, R. R. (org.) Função Fraterna. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2000, p. 7-30.
FREUD, S. Caminhos da terapia psicanalítica. In: FREUD, S. História de uma neurose infantil (“O Homem dos Lobos”), Além do princípio do prazer e outros textos. (1917-1920). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Publicado originalmente em 1919.
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Tradução: J. O. A. Abreu, V. Nobre. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
WINNICOTT, D. W. Human Nature. Londres: Winnicott Trust, 1988.

