UM PASSEIO EM BUSCA DO GESTO ESPONTÂNEO

UM PASSEIO EM BUSCA DO GESTO ESPONTÂNEO1 

Luana Timbó Martins de Amoreira2 

“Como é isso? Então vocês são pagas pra passear?” – esse foi o  estranhamento diante do comentário de que o próximo grupo aconteceria em um  barzinho da cidade. Questionamento pertinente, pois eu mesma já havia me  perguntado sobre que sentido teriam as chamadas ‘sessões externas’ no  enquadramento terapêutico3 daqueles pacientes. Já dispondo de alguma  familiaridade com o funcionamento dos grupos de crianças, nos quais o brincar  tem lugar fundamental, foi muito diferente me deparar com aquela pequena  turma de jovens adultos com idade próxima da minha (em torno de 30 anos),  quando nossa atuação na cidade e na cultura diz muito sobre quem somos. Era  o ‘Grupo do Fazer’, denominação contendo a proposta de ‘fazer’ algo juntos,  dentro de uma configuração terapêutica na qual as sessões fora do consultório  são frequentes. Esse ‘fazer’ – essas ‘externas’ – teria o lugar que o brincar ocupa  nos grupos com crianças? Foi para esclarecer tal questão que comecei a estudar  sobre acompanhamento terapêutico.  

A modalidade de atenção em saúde conhecida como acompanhamento  terapêutico não está ligada a uma única teoria. A psicanálise pode embasar esse  tipo intervenção, levando-se em conta a importância da escuta, do inconsciente  e da transferência, oferecendo a possibilidade de entender o funcionamento da  estrutura psíquica do paciente e apontando um direcionamento da escuta. O acompanhamento terapêutico é a modalidade de intervenção que concebe  condições de interação social (CABRAL, 2005). Quando o analisando é  

1 Trabalho apresentado no V Encontro Gaúcho sobre o Pensamento de D.W. Winnicott – Amor:  do gesto ao encontro, em 15 de junho de 2018, como preparação para o XIII Encontro  Brasileiro sobre o Pensamento de D. W. Winnicott. 

2 Psicóloga (UNIFOR) e Mestre em Psicologia (UFRJ); Psicanalista do Centro de Referência à  Infância – INCERE; Docente do Curso de Psicologia da UNIFANOR-Wyden. (luanatm@gmail.com). 

3 Enquadramento terapêutico é o conjunto de indicações clínicas para um caso, que envolve  número de sessões, tipos de atendimento, onde acontecerão (no consultório, em casa, na  rua…). No Centro de Referência à Infância (INCERE), oferecemos atendimentos  psicológicos/psicanalíticos, de terapia ocupacional, de fonoaudiologia e de grupos  terapêuticos. Dependendo da demanda de um caso, um ou mais desses dispositivos fará  parte do enquadramento terapêutico de um paciente.

encaminhado para essa forma de atenção em saúde, geralmente passou por  outras intervenções – a maioria dos casos apresenta problemas duradouros e  contatos sociais empobrecidos. Logo, um dos principais objetivos é que se  reconheça a partir de um lugar que não o da doença mental, auxiliando também  à família e à sociedade a perceberem seus potenciais produtivos.  

No acompanhamento terapêutico, os profissionais devem aproveitar a  capacidade criativa dos pacientes, mais do que tentar transformar suas  estruturas psíquicas possivelmente já atacadas pelo saber psiquiátrico.  Invariavelmente provoca uma ruptura na rotina do paciente, porque possibilita a  percepção de outras maneiras de se comunicar e de se relacionar no ambiente  social. A cidade, com seus acontecimentos e imprevistos, pode operar mudanças  ao servir de local de atendimento fora do cenário convencional da clínica e  consultório. 

A clínica com pacientes graves 

Para alguns pacientes, o ambiente terapêutico oferecido pelo psicanalista  tem influência fundamental. Pessoas regredidas no desenvolvimento psíquico,  com maior fragilidade e imaturidade emocional, seriam mais favorecidas com a  criação de um ambiente confiável do que com interpretações ou silenciamentos  do analista (MAIA, 2006). São sujeitos com dificuldade de constituir um eu  integrado, que faz parte do amadurecimento psíquico, quando o bebê vai  conseguindo estabelecer uma separação entre mundo interno e mundo externo,  diferenciando seu eu (quem ele é) de um não-eu. Não firmando suficientemente  a experiência de um eu separado do outro, o indivíduo pode apresentar  ansiedade nos relacionamentos interpessoais e desconforto na dependência dos  demais. Os vínculos de confiança precisam ser estabelecidos em análise, o que  demanda atenção contínua do terapeuta. 

É aí que surge a proposta de ampliação do ambiente terapêutico, em  parceria com outras modalidades de trabalho clínico, pautada nas necessidades  do paciente e diferente dos procedimentos estandardizados. O Acompanhamento Terapêutico atua como um ego auxiliar, fazendo a ponte entre  mundo interno e externo. Suas ações devem possibilitar encontros, tendo o meio  social como constitutivo do acompanhamento

Na introdução do livro Gesto Espontâneo, de Winnicott (2005), o 

organizador da edição (Robert Rodman) pontua que o psicanalista defendia uma clínica na qual devemos proporcionar uma atmosfera tolerante – o que não quer  dizer acrítica – para o surgimento de gestos espontâneos. Devemos caminhar  juntos e não invadir os pacientes, encontrar ambientes não invasivos e trabalhar  com intervenções não invasivas. Seguindo esse pensamento, na cidade, o terapeuta responde junto com o paciente às perguntas e solicitações que o meio  faz e, assim, cria-se a oportunidade de o paciente se servir dele para se  organizar. O social faz o papel de um outro que olha, e o acompanhante atua em  alguns momentos como borda, em outros como parceiro de transgressão de  limites. São funções do acompanhamento terapêutico: ego auxiliar, modelo de  identificação, alívio das ansiedades persecutórias, continência, função especular e interlocução de desejos e fantasias do paciente. 

Lembramos aqui do que disse Winnicott (2005) em carta para J. D.  Collinson de 10 de março de 1969, falando sobre bebês:  

“Não podemos nem mesmo ensiná-los a andar, mas sua tendência  

inata para andar em certa idade precisa de nós como figuras de apoio,  

e possivelmente seu próprio filho precisou tocar o dedo de alguém ao  

andar num estágio inicial, conseguindo apoio moral para algo que já se  

tornara uma possibilidade para ele ou ela em termos fisiológicos ou  

anatômicos” (p. 222). 

Deve haver uma ênfase na ligação do sujeito com o social, sendo  imprescindível escutar os sintomas e encontrar neles alguma via de  comunicação. É preciso reconhecer o idioma pessoal de cada um, sua  singularidade, para com isso o acompanhante não impor seu ritmo, mas sim  adaptar-se ao paciente. Acompanhar envolve antecipar, construir caminhos de  encontro com a cultura, oferecer referências não cristalizadas. A saída na cidade  toma, dessa forma, a dimensão de um grande acontecimento: a possibilidade de  viver uma cena no social na qual o paciente possa ser atuante a partir de sua  estrutura psíquica. Pode se configurar como uma atuação clínica que tem  cuidado com o respeito à diversidade de ser, reduzindo interferências às  tendências naturais de saúde e de desenvolvimento dos sujeitos. 

A clínica como prática política 

Outro aspecto importante em relação ao Acompanhamento Terapêutico é  o da clínica como prática política, abrindo espaço para sua desinstitucionalização

(PALOMBINI, 2006). O acompanhante terapêutico é a instituição que sai para a  rua, criando um campo transicional. 

Essa prática surgiu no contexto da reforma psiquiátrica como forma de substituir manicômios por uma rede de atenção integral à saúde mental. Proposta de desenclausurar a loucura com uma clínica do espaço domiciliar e  cotidiano que atravessa público e privado. Experiência móvel, nômade e  arriscada. Perspectiva não tutelar e na contramão de uma sociedade disciplinar,  psiquiatrizada. Prática que trabalha com imprevistos, espanto e  desacomodação, acompanhando a experiência da loucura na cidade e não mais  no asilo (BTESHE et al, 2009). Surge da necessidade de se criarem pontes entre  a loucura e a sociedade, para criar outra resposta que não seja a exclusão. 

Estar na cidade é estar no próprio lugar que tenta excluir a loucura.  Mesmo o meio urbano sendo conhecido por terapeuta e paciente, a proposta do  acompanhamento terapêutico parece encarar de frente o paradoxo do objeto  transicional: ser descoberto e ao mesmo tempo criado – é isso que acontece  também com a cidade. Encontramos espaços onde seja possível incorporar o  que a “loucura” oferece, fazemos um mapeamento de pontos de interesse, de  encontros, montando um guia de ocupação urbana. Dessa forma,  reacomodações acontecem tanto para os sujeitos quanto para a cidade.  Descobrimos e criamos espaços. O acompanhamento terapêutico configura-se  como um dispositivo clínico e político quando trata da difícil tarefa da convivência  com a diferença. 

Em carta para Roger Money-Kyrle, de 27 de novembro de 1952, Winnicott  (2005) disse: 

“Acho que podemos admitir que, do ponto de vista emocional, não  

existe nenhuma contribuição do indivíduo para o ambiente ou do  

ambiente para o indivíduo. O indivíduo apenas se comunica com um  

mundo auto-inventado, e as pessoas no ambiente apenas se  

comunicam com o indivíduo na medida em que podem cria-lo.  

Contudo, quando há saúde, existe a ilusão de contato, e é ela que  

oferece os pontos altos da vida humana e faz com que as artes se  

encontrem entre os aspectos mais importantes da experiência  

humana” (p. 53). 

Voltando ao Grupo do Fazer, no qual acompanhei como coterapeuta três  jovens adultos, lembro que durante os primeiros meses que fazia parte do grupo,  fui tomada por um sentimento de desesperança em relação a esses jovens.  Todos ainda “estudavam” em uma escola que os infantilizava em muitos 

aspectos e onde não existia a perspectiva de finalização; na cidade parecia não  haver projeto algum que oferecesse lugar de pertinência em relação ao mundo  do trabalho; pais e terapeutas muitas vezes são pegos em um processo de  dessubjetivação desses rapazes… Como construir algo que os tire de uma  identificação excessiva com a loucura ou com suas impossibilidades de existir? 

O sentimento inicial de desesperança foi sendo diluído nas reuniões de  equipe, quando as terapeutas que já acompanhavam os casos retomaram várias  experiências vividas com os rapazes em sessões que os acompanharam em  saídas, em aniversários, ou na realização de painéis no INCERE, quando suas  analistas pontuavam as rotas de fuga potencializadas por essas intervenções.  Começando a participar também de sessões externas, foi possível perceber  como os rapazes mostravam diferentes nuances de si quando estavam em  lugares públicos. E nas supervisões foi preciso admitir que o perigo da  dessubjetivação dos pacientes pode aparecer também como uma idealização do  terapeuta: Como eu achava que eles deveriam se portar? O que eu gostaria que  eles estivessem fazendo? A idealização era de que muito mais deveria e poderia  ser feito com eles, esquecendo-se de que é necessário seguir o ritmo deles e  construir um lugar que é possível tanto para eles quanto para as famílias.  

“A meu ver, existe uma expressão bem simples da relação do bebê  

com o mundo externo. Ou o mundo invade o bebê e se esse for o  

padrão o bebê reage e, para recuperar um senso pessoal de entidade,  

tem de recuar; ou, por outro lado, se o padrão for de que o bebê  

descobre o mundo por meio de impulso, movimento, gesto, salivação,  

visão, etc., então o contato com a realidade externa faz parte da vida  

do indivíduo e podemos deixar de lado aquilo que descrevi como um  

recuo de contato para o restabelecimento do senso de ser”  

(WINNICOTT, 2005, p. 51-52, Para Roger Money-Kyrle, de 27 de  

novembro de 1952). 

O perigo de não ver esses pacientes em suas singularidades está sempre  rondando e, por isso, devemos permanecer atentos. Por fim, acreditamos que o  acompanhamento terapêutico pode funcionar como um fenômeno transicional  para o grupo com adultos, assim como acontece com o brincar para os grupos  com crianças, já que a cultura configura-se como um espaço entre o mundo  subjetivo e a realidade compartilhada. Experimentar no social a capacidade  criativa dos pacientes pode fazer com que vejamos coisas que nem pensávamos  ser possíveis se considerássemos um diagnóstico como sentença: um ‘autista’  dar as mãos a uma roda e dançar empolgadamente uma ciranda com completos  desconhecidos em um show cultural da cidade.

Terminamos com uma citação da carta de Winnicott (2005) para Harry  Guntrip, de 13 de agosto de 1954: “O mundo interno cresce com essas  experiências assim como o corpo cresce com o alimento ingerido” (p. 95). 

REFERÊNCIAS  

BTESHE, M.; COUTINHO, M.F.; ESTELLITA-LINS, C.; OLIVEIRA; V. M. (2009)  Por uma tentativa de situar o acompanhamento terapêutico entre a psicanálise  e a psiquiatria comunitária. Em: Revista AdVerbum, 4(2), ago.-dez. 2009, p. 59- 63. 

CABRAL, Karol Veiga. (2005) Acompanhamento terapêutico como  dispositivo da reforma psiquiátrica: considerações sobre o setting.  Dissertação de mestrado (UFRGS): Porto alegre. 

MAIA, Suzana Magalhães. (2006) O acompanhamento terapêutico como uma  técnica de manejo. Em: Revista Psychê, ano 10, n. 18, São Paulo, set. 2006, p.  29-40. 

PALOMBINI, Analice de Lima (2006). Acompanhamento terapêutico: dispositivo  clínico-político. Em: Revista Psychê, ano 10, n. 18, São Paulo, set. 2006, p. 115- 127. 

WINNICOTT, D. W. (2005). O gesto espontâneo. São Paulo: Martins Fontes,  2005.

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